Me desculpa.
Eu sei, eu sei, é uma maneira meio idiota de começar. Mas acho uma boa idéia começar pelo sentido central. Enfim.
Me desculpa, de verdade. Você pode achar que não há nada pelo que pedir desculpas, mas há - é óbvio que há, não seja ingênuo. Eu estraguei tudo e com uma eficácia...se eu fosse tão boa em, sei lá, medicina, como eu sou boa em estragar as coisas entre nós, eu teria descoberto a cura da paralisia ou o que quer que seja.
A questão entre nós é que havia essa ponte. Você daí, eu daqui, nenhum dos dois podia cruzar essa ponte. A gente jogava aviõezinhos de papel, gritava em megafones, fazia o diabo pra diminuí-la. Mas é óbvio que ela não diminuía. A gente podia fingir que sim, mas a verdade é que ela sempre foi - e sempre será - longa, desagradavelmente, impiedosamente longa. E não há nada que possamos fazer. Pensávamos em cruzá-la, fazíamos esses planos pra chegar ao outro lado, imaginávamos como seria quando tivéssemos nossos braços finalmente entrelaçados. Doce ilusão.
Mas o fato de não haver nada para melhorar não significa que não havia nada que pudesse piorar a situação. Nããão, não, havia muitas coisas - e eu, com maestria, experimentei um pouco de tudo. Eu criei obstáculos, barreiras pro som do megafone e pra travessia dos aviões. Me doía não poder cruzar a ponte e eu sei que lhe doía por igual. Ou até mais. Porque, veja bem, você nunca tentou me afastar de ti. Você sempre foi tão paciente e tão brincalhão enquanto eu me desesperava, perdia a sanidade, o juízo. Te empurrei pra muito muito longe depois clamei para que voltasse.
Você não precisava ter voltado. Mas voltaste, pro mesmo lugar que lhe era de direito - seu lado da ponte, meu lado esquerdo do peito. E essa distância entre peito e ponte continuou a me agoniar, a me estrangular e eu já não sabia mais o que eu queria. Eu te queria do meu lado, mas sabia da impossibilidade, me irritava, me frustrava e não te queria mais era de lado nenhum. Não queria mais vê-lo. Não queria mais sentir a queimação dentro de mim, essas borboletas no estômago quando o pegava me olhando com olhar tão manso, quando o pegava sorrindo abobalhado com meus devaneios. Então eu fiz.
Eu fiz a coisa mais estúpida que eu poderia ter feito.
Eu quebrei a ponte. Com uma marreta gigantesca, um serrote, uma dinamite.
É, uma dinamite. Eu explodi a ponte. Eu impedi que você pudesse chegar à mim e vice versa. Eu acabei com o sofrimento, com a dor. Durante muito muito tempo eu achei, de coração, que tivesse acabado com a causa desse nó no coração.
Bom...eu nunca fui lá muito inteligente.
A verdade é que sempre que eu penso num sorriso acolhedor, sempre que eu penso em alguém que me faça sentir leve, sempre que eu penso em alguém pra abraçar à noite, eu penso em você. Completamente involuntário, mas que diferença faz? Eu penso, ponto, acabou. Eu disse à mim mesma que não precisava de você e veja a situação em que me coloquei agora. A verdade é que uma vida de dois não pode ser acabada por um. Se fosse pra ter um final, que não tivesse sido dessa maneira tão bruta. Eu senti o fim chegando e quis cortar o mal pela raiz. Quis sentir a dor de uma vez só e seguir em frente. Quis ter o coração quebrado em uma martelada só. Mas não cabia a mim quebrar o seu, fingir que não me importava com ele.
Sou patética pelas minha atitudes, mas o lado positivo é que eu tento mudá-las. E é essa a idéia aqui.
Eu achei que, uma vez explodida, eu tinha virado as costas e seguido minha vida. Mas não. Eu continuei parada. E você, provavelmente chateado, foi-se embora. Fez muito bem, lógico. Seria idiotice sua ter ficado ali, esperando eu mudar de idéia. Tu deves ter tomado um rumo e eu fico feliz em saber que está bem, que está feliz. É egoísmo meu pedir para que voltes. Eu sei. Eu provavelmente o magoarei e me magoarei de novo. Provavelmente mais a você do que a mim. Mas eu não consigo evitar, meu bem, eu não consigo. Eu estou aqui, prego por prego, reconstruindo essa ponte. E esperando. Esperando você voltar. Pro seu lado da ponte, que seja. Longe de mim, so be it. Pode ser que, de fato, seja estupidez eu querer sentir seus olhos em minha alma novamente, mas, como eu disse, eu nunca fui lá muito esperta.
Me desculpa.
domingo, 13 de junho de 2010
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Credor.
Ela disse assim: "Pára. Não quero mais nada com você. Não lhe devo nada, por favor, não faça como se eu devesse."
Vadia.
Como alguém pode dizer uma coisa dessas? Como alguém, depois de acabar um relacionamento de maneira tão súbita da maneira como acabou, pode dizer em sã consciência que não deve nada ao outro? Não, não, eu digo que ela me deve muito. E estou aqui para cobrar.
A começar, devolva-me o tempo que perdi planejando nosso futuro. Planejando com todo o cuidado as nossas noites juntas, o que lhe diria ao talvez pedir sua mão, as nossas férias pra esse janeiro, a comida da semana que vem. Devolva-me também o relógio que lhe dei no último natal, pra você ser um pouco menos avoada, ser menos perdida no tempo e espaço, pra não perder a hora dos nossos encontros ou das suas consultas médicas.
Devolva-me as canções que fiz pensando em você, as melodias que me soam completamente desafinadas agora, minhas tentativas vãs de te fazer aprender a tocar violão, seus dedos correndo o braço desengonçados, a maneira como você escondia a cabeça no violão, depois levantava sorrindo e dizia "toma, vai. não consigo". Devolva-me a maneira como me sentia bem ao tocar para mim mesmo velhas composições, como me sentia respeitando grandes nomes da música ao tocar sem errar uma nota suas letras de amor. Devolva-me também meu caderno de rabiscos musicais e, se não for pedir muito, devolva-me minha coletânea de MPB que eu guardei com todo o cuidado e que você sempre desarrumava querendo saber o nome de tal música.
Devolva minha solidão ao dormir, meu costume de dormir em qualquer lado da cama sem me sentir mal. Devolva-me o ar do colchão que levaste e deixaste o seu lado amassado dando uma sensação patética de vazio. Devolva-me também meus tampões que usavas pra não ter que me ouvir roncar.
Devolva minha vontade de chegar em casa e descansar sozinho. Devolva minha habilidade de cozinhar e de gostar da comida que cozinho quando chego do trabalho. Devolva meu prazer de sentar à mesa e não ter de ouvir seus lamentos e suas histórias do dia. Devolva meu prazer de não contar à ninguém sobre meu dia, só aos fins de semana, no bar com meus amigos. Devolva meu cheiro às minhas coisas, tire daqui seu perfume que empesteou meu lar, meu nariz, enevoou meus sentidos. Devolva também aquele meu livro favorito, que você sempre esquecia de me devolver.
Devolva meus sorrisos, minha alegria de viver, de me sentir pertencendo à este mundo. Devolva meu prazer de acordar todas as manhãs para fazer o que quer que eu tenha que fazer. Devolva minha indiferença ao ver casais de mãos dadas nas ruas, falando sabe-se-lá-o-quê ao pé do ouvido, se beijando tão apaixonados. Devolva meus risos sinceros, devolva meu gosto por abraçar outras pessoas que não sejam você. Devolva minha vontade de beijar outras mulheres até mais bonitas que você. Devolva meu coração - por favor, devolva meu coração para que eu possa dá-lo à alguém que o consertará. Que cuidará dele da maneira como você cuidou tão bem, mas que não o jogará na parede ou deixará escorrer pelas mãos, caindo em câmera lenta e se partindo em milhares de pedacinhos no chão. Que o deixará seguro na prateleira, no travesseiro ou dentro da bolsa que usa todo dia. Que o guardará junto ao seu coração e que cumprirá a promessa de tê-lo inteiro até o fim.
Devolva-me.
Vadia.
Como alguém pode dizer uma coisa dessas? Como alguém, depois de acabar um relacionamento de maneira tão súbita da maneira como acabou, pode dizer em sã consciência que não deve nada ao outro? Não, não, eu digo que ela me deve muito. E estou aqui para cobrar.
A começar, devolva-me o tempo que perdi planejando nosso futuro. Planejando com todo o cuidado as nossas noites juntas, o que lhe diria ao talvez pedir sua mão, as nossas férias pra esse janeiro, a comida da semana que vem. Devolva-me também o relógio que lhe dei no último natal, pra você ser um pouco menos avoada, ser menos perdida no tempo e espaço, pra não perder a hora dos nossos encontros ou das suas consultas médicas.
Devolva-me as canções que fiz pensando em você, as melodias que me soam completamente desafinadas agora, minhas tentativas vãs de te fazer aprender a tocar violão, seus dedos correndo o braço desengonçados, a maneira como você escondia a cabeça no violão, depois levantava sorrindo e dizia "toma, vai. não consigo". Devolva-me a maneira como me sentia bem ao tocar para mim mesmo velhas composições, como me sentia respeitando grandes nomes da música ao tocar sem errar uma nota suas letras de amor. Devolva-me também meu caderno de rabiscos musicais e, se não for pedir muito, devolva-me minha coletânea de MPB que eu guardei com todo o cuidado e que você sempre desarrumava querendo saber o nome de tal música.
Devolva minha solidão ao dormir, meu costume de dormir em qualquer lado da cama sem me sentir mal. Devolva-me o ar do colchão que levaste e deixaste o seu lado amassado dando uma sensação patética de vazio. Devolva-me também meus tampões que usavas pra não ter que me ouvir roncar.
Devolva minha vontade de chegar em casa e descansar sozinho. Devolva minha habilidade de cozinhar e de gostar da comida que cozinho quando chego do trabalho. Devolva meu prazer de sentar à mesa e não ter de ouvir seus lamentos e suas histórias do dia. Devolva meu prazer de não contar à ninguém sobre meu dia, só aos fins de semana, no bar com meus amigos. Devolva meu cheiro às minhas coisas, tire daqui seu perfume que empesteou meu lar, meu nariz, enevoou meus sentidos. Devolva também aquele meu livro favorito, que você sempre esquecia de me devolver.
Devolva meus sorrisos, minha alegria de viver, de me sentir pertencendo à este mundo. Devolva meu prazer de acordar todas as manhãs para fazer o que quer que eu tenha que fazer. Devolva minha indiferença ao ver casais de mãos dadas nas ruas, falando sabe-se-lá-o-quê ao pé do ouvido, se beijando tão apaixonados. Devolva meus risos sinceros, devolva meu gosto por abraçar outras pessoas que não sejam você. Devolva minha vontade de beijar outras mulheres até mais bonitas que você. Devolva meu coração - por favor, devolva meu coração para que eu possa dá-lo à alguém que o consertará. Que cuidará dele da maneira como você cuidou tão bem, mas que não o jogará na parede ou deixará escorrer pelas mãos, caindo em câmera lenta e se partindo em milhares de pedacinhos no chão. Que o deixará seguro na prateleira, no travesseiro ou dentro da bolsa que usa todo dia. Que o guardará junto ao seu coração e que cumprirá a promessa de tê-lo inteiro até o fim.
Devolva-me.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Carta ao amor
Eu não sou boa em me explicar. Nunca fui nem nunca serei. Mas tem uma razão preu gritar, preu espernear, pros meus ciúmes e meus lamentos. Existe, meu bem, uma razão pras minhas mudanças de humor, para eu te querer tão bem às vezes e tão longe outras. Pra eu te xingar enquanto te abraço, e dizer que não quero mais te ver enquanto te faço meus carinhos. Pra eu te morder quando te beijo. Pra não te servir comida à mesa. Pra sair com meus amigos sem dizer aonde vou, e até pra dançar com outros. Outros não tem o mesmo balanço, a mesma ginga que você. Não dançam no mesmo compasso. Não têm o mesmo ritmo, o mesmo embalo que me aperta o coração e arrepia a alma.
Existe uma razão. Pode não ser a melhor do mundo, mas é a única que tenho - e acredite quando digo ser a verdadeira.
A razão, meu bem, é que eu te amo. Perdoe parecer clichê, mas é isso que eu sinto por ti. Mais até do que gostaria de sentir, menos do que realmente sinto - mas creio ser a única palavra que defina esse gosto desgostado, esse mexe remexe na minha cabeça, esse grito insano na garganta. Eu tento, de verdade, gostar menos de ti. Tento me desapegar, não mergulhar tão fundo, mas fico louca com a possibilidade de te perder. E é assim que essa loucura se manifesta - em tentativas vãs de te afastar de mim. Peço-lhe compreensão. Compreensão e paciência, pra aturar meus devaneios, pra segurar minha mão mesmo que eu lhe peça para soltar. Tenho medo que soltes da minha mão, que me deixe livre - tenho medo da liberdade. Quero estar presa sempre, presa à teu sorriso, à teus beijos e à teus abraços.
Perdoa se um dia te magoei, se um dia te machuquei, se um dia ofendi tua mãe, teus irmãos, teu cachorro, teu periquito e teu papagaio. Não quis dizer nada disso com verdade ou com vontade. A única verdade, meu bem, é que não sou nada sem você. Gosto de ser essa coisa que sou do seu lado, e essa é minha única vontade. De continuar sendo essa coisa que sou contigo, de continuar sentindo essa coisa gostosa quando penso em você, de pensar em você quando durmo, quando acordo, quando entro no computador, quando ouço música, quando tomo banho, quando quando quando, quando tudo. Quero escrever poemas sobre nosso amor, músicas sobre nossa vida, inventar perfumes que lembrem nossos momentos. Quero continuar discutindo contigo sobre qual filme alugar, qual comida pedir, qual praia ir e outras coisas bobas que sempre acabam na cama, nesse misto de força e doçura que só a gente entende. Não quero medir forças contigo, quero ser a sua força, porque tu és a minha. Um dia vamos brigar sobre o nome dos nosso filhos, que escola eles devam ir, quem é o responsável por ele ter batido no coleguinha que o chamou de bobão. Um dia vamos vê-los se casando, um dia vamos ter nosso álbum de memórias mais cheio que a Biblioteca Nacional, um dia dormiremos abraçados e não acordaremos mais. Viveremos pra sempre - eu te batendo, você me aturando, porque assim que terá que ser - só eu, você e todo esse rio selvagem de amor que ameaça transbordar sempre que sinto sua pele tocando a minha.
Existe uma razão. Pode não ser a melhor do mundo, mas é a única que tenho - e acredite quando digo ser a verdadeira.
A razão, meu bem, é que eu te amo. Perdoe parecer clichê, mas é isso que eu sinto por ti. Mais até do que gostaria de sentir, menos do que realmente sinto - mas creio ser a única palavra que defina esse gosto desgostado, esse mexe remexe na minha cabeça, esse grito insano na garganta. Eu tento, de verdade, gostar menos de ti. Tento me desapegar, não mergulhar tão fundo, mas fico louca com a possibilidade de te perder. E é assim que essa loucura se manifesta - em tentativas vãs de te afastar de mim. Peço-lhe compreensão. Compreensão e paciência, pra aturar meus devaneios, pra segurar minha mão mesmo que eu lhe peça para soltar. Tenho medo que soltes da minha mão, que me deixe livre - tenho medo da liberdade. Quero estar presa sempre, presa à teu sorriso, à teus beijos e à teus abraços.
Perdoa se um dia te magoei, se um dia te machuquei, se um dia ofendi tua mãe, teus irmãos, teu cachorro, teu periquito e teu papagaio. Não quis dizer nada disso com verdade ou com vontade. A única verdade, meu bem, é que não sou nada sem você. Gosto de ser essa coisa que sou do seu lado, e essa é minha única vontade. De continuar sendo essa coisa que sou contigo, de continuar sentindo essa coisa gostosa quando penso em você, de pensar em você quando durmo, quando acordo, quando entro no computador, quando ouço música, quando tomo banho, quando quando quando, quando tudo. Quero escrever poemas sobre nosso amor, músicas sobre nossa vida, inventar perfumes que lembrem nossos momentos. Quero continuar discutindo contigo sobre qual filme alugar, qual comida pedir, qual praia ir e outras coisas bobas que sempre acabam na cama, nesse misto de força e doçura que só a gente entende. Não quero medir forças contigo, quero ser a sua força, porque tu és a minha. Um dia vamos brigar sobre o nome dos nosso filhos, que escola eles devam ir, quem é o responsável por ele ter batido no coleguinha que o chamou de bobão. Um dia vamos vê-los se casando, um dia vamos ter nosso álbum de memórias mais cheio que a Biblioteca Nacional, um dia dormiremos abraçados e não acordaremos mais. Viveremos pra sempre - eu te batendo, você me aturando, porque assim que terá que ser - só eu, você e todo esse rio selvagem de amor que ameaça transbordar sempre que sinto sua pele tocando a minha.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Mais uma dose.
Na segunda cadeira do balcão (pra quem olha de lá pra cá) havia essa garota. Jamais tive a chance de perguntar seu nome, mas é como se eu soubesse quem era ela só de olhá-la. Era alta, mais alta ainda em seus saltos Jimmy Choo, com a silhueta bem traçada por um vestido vermelho não muito chamativo. De toda, não era muito chamativa: Tinha nos dedos um esmalte claro, não usava jóias, seu corpo diminuto parecia se perder em meio aos flashes das luzes daquele lugar. Era magra, rosto fino, postura curvada, olhar ao longe. Na mão, um copo com algo vermelho vivo jazia pela metade. Raramente encostava os lábios sem batom nele e, quando o fazia, fazia de maneira tão discreta que só olhando-a firme, como eu estava, é que se conseguia vê-la de fato bebendo o que quer que aquilo fosse.
Ela não parecia esperar por alguém - ou pelo menos não dava os sinais de tal ação, como olhar pros lados constantemente ou checar as horas. Porque tal figurinha, pálida e singela, estaria num lugar como aquele, só do jeito que estava?
Minha mente começou a vagar pelas mil possibilidades: Talvez tivesse perdido o emprego, o namorado a traiu, o marido a largou por alguém mais jovem, mais bonita, com mais sal. Não. Seus olhos não tinham o pesar da tristeza, o rosto não se contorcia em raiva ou lágrimas. Seria alguma comemoração mórbida? Talvez tivesse cumprido uma obrigação que a atormentara, e bebia para esquecer-se de tudo? Também não. Estava solta demais, leve demais, vaga demais para que houvesse qualquer nuvem de consternação pairando à sua volta. Tive vontade de sentar do seu lado, pagar mais uma dose daquilo que bebia, perguntar-lhe seu nome, tocar sua mão e saber se era quente ou fria, saber de sua vida e de seus planos. Queria muito saber se tinha planos, se se projetava daqui há alguns anos e como. Continuei a olhá-la, minha curiosidade crescendo a cada segundo, minhas pernas quase que se levantando involuntariamente, quando aconteceu.
Da segunda cadeira do balcão (de quem olha de lá pra cá), a pequena mulher se levantou - e daí comprovo a afirmação sobre sua altura em seus Jimmy Choo's - e, com um suspiro, pagou a conta. Não pude ouvir sua voz em meio à música, só pude imaginá-la fraca, pequena como tal criatura. Com um suspiro, ela ajeitou as alças do vestido e caminhou em direção à porta.
Antes que pudesse chegar ao seu destino, porém, encontrou algo que não esperava: Meu olhar, estagnado na pureza de seu caminhar e de sua expressão lisa sem maquiagem. Ao encontrá-lo, se deteve por 1, 2, 3 segundos, piscou como se saísse de um transe, deu uma longa expirada e acalmou o que quer que estivesse acontecendo dentro daquele corpo. Os olhos sem vida, sem graça, sem nada, que eu observava há um minuto voltaram e me olharam de volta, sem interrogação ou surpresa. De relance vi um meio sorriso sem dentes; gelei.
Enquanto ela passava por mim e saía mundo afora, me dei conta do que tanto me prendia nela.
Ela, com seu drink vermelho e seus sapatos de salto alto, estava tão perdida e vagante naquela vida quanto eu.
Ela não parecia esperar por alguém - ou pelo menos não dava os sinais de tal ação, como olhar pros lados constantemente ou checar as horas. Porque tal figurinha, pálida e singela, estaria num lugar como aquele, só do jeito que estava?
Minha mente começou a vagar pelas mil possibilidades: Talvez tivesse perdido o emprego, o namorado a traiu, o marido a largou por alguém mais jovem, mais bonita, com mais sal. Não. Seus olhos não tinham o pesar da tristeza, o rosto não se contorcia em raiva ou lágrimas. Seria alguma comemoração mórbida? Talvez tivesse cumprido uma obrigação que a atormentara, e bebia para esquecer-se de tudo? Também não. Estava solta demais, leve demais, vaga demais para que houvesse qualquer nuvem de consternação pairando à sua volta. Tive vontade de sentar do seu lado, pagar mais uma dose daquilo que bebia, perguntar-lhe seu nome, tocar sua mão e saber se era quente ou fria, saber de sua vida e de seus planos. Queria muito saber se tinha planos, se se projetava daqui há alguns anos e como. Continuei a olhá-la, minha curiosidade crescendo a cada segundo, minhas pernas quase que se levantando involuntariamente, quando aconteceu.
Da segunda cadeira do balcão (de quem olha de lá pra cá), a pequena mulher se levantou - e daí comprovo a afirmação sobre sua altura em seus Jimmy Choo's - e, com um suspiro, pagou a conta. Não pude ouvir sua voz em meio à música, só pude imaginá-la fraca, pequena como tal criatura. Com um suspiro, ela ajeitou as alças do vestido e caminhou em direção à porta.
Antes que pudesse chegar ao seu destino, porém, encontrou algo que não esperava: Meu olhar, estagnado na pureza de seu caminhar e de sua expressão lisa sem maquiagem. Ao encontrá-lo, se deteve por 1, 2, 3 segundos, piscou como se saísse de um transe, deu uma longa expirada e acalmou o que quer que estivesse acontecendo dentro daquele corpo. Os olhos sem vida, sem graça, sem nada, que eu observava há um minuto voltaram e me olharam de volta, sem interrogação ou surpresa. De relance vi um meio sorriso sem dentes; gelei.
Enquanto ela passava por mim e saía mundo afora, me dei conta do que tanto me prendia nela.
Ela, com seu drink vermelho e seus sapatos de salto alto, estava tão perdida e vagante naquela vida quanto eu.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Luzes da Cidade
Em 10 de novembro
Escrevo esse texto numa das poucas ocasiões em que, num dia de semana comum, em pleno Rio de Janeiro, todas as luzes da cidade se apagaram juntas. Ou pelo menos as da rua, do quarteirão, sei lá.
Lá em São Pedro, o finzinho de mundo que eu costumava frequentar, acabar a luz era um fenômeno extremamente natural. De fato, lá nós tínhamos umas boas...muitas velas, perfumadas, grandes, pequenas, coloridas, brancas, de todo o tipo. Aqui em casa nós tínhamos duas velas, mas como a vovó usou uma ontem (não perguntem) só nos restou essa única a trepidante velinha, que eu quase queimo meus dedos na tentativa de mantê-la acesa.
Acabar a luz na cidade grande é um evento - um grande evento, com vários momentos: primeiro, há o espanto, uns gritos pra cá e pra lá, uns fanfarrões gritando os nomes de seus times. Depois, o silêncio. Eu já havia me esquecido como era ouvir o silêncio no Rio, e meus ouvidos se surpreenderam com a falta (ou total?) percepção que lhes invadiu como uma onda. Olhei pela janela, para os muitos prédios à minha frente, grandes sombras, um ou outro retângulo aceso (nota mental: perguntar nos prédios sobre luzes de emergência domiciliares), uma vidraça trepidando tal qual meu retângulo deve estar agora. De repente, uma janela se abriu, e uma sombra masculina surgiu. Fiquei olhando com medo de olhar, não sabia se minha vela deixava meu rosto à mostra ou se eu era apenas mais uma sombra. Por alguns momentos, senti ser olhada de volta. Er...ok, saí da janela.
Sem o final do capítulo de "Viver a Vida", vovó ligou o modo pane: medo que mamãe não enxergasse as escadas, que estivesse presa no elevador ou sendo engolida pelas ruas escuras. Uma vez que mamãe chegou em casa trazendo notícias da rua e meu irmão, com seu MPnãoseionº me informando sobre o apagão (nacional, como fui descobrir) enquanto o jogo do Vasco não era transmitido, a calma voltou à casa - e, ao que parece, não só à minha. Lá fora, os carros passam pelas ruas pós-chuva, restaurantes funcionam com luzes de emergência, pessoas conversam (sim, alto) nos apartamentos vizinhos. E eu fico aqui, na minha talvez romântica e ingênua idéia de que o mundo esteje tão ofuscado, tão iluminado, tão cego pela claridade a ponto de não perceber que, na verdade, pouco precise - ou importe - as (muitas) luzes da cidade.
Escrevo esse texto numa das poucas ocasiões em que, num dia de semana comum, em pleno Rio de Janeiro, todas as luzes da cidade se apagaram juntas. Ou pelo menos as da rua, do quarteirão, sei lá.
Lá em São Pedro, o finzinho de mundo que eu costumava frequentar, acabar a luz era um fenômeno extremamente natural. De fato, lá nós tínhamos umas boas...muitas velas, perfumadas, grandes, pequenas, coloridas, brancas, de todo o tipo. Aqui em casa nós tínhamos duas velas, mas como a vovó usou uma ontem (não perguntem) só nos restou essa única a trepidante velinha, que eu quase queimo meus dedos na tentativa de mantê-la acesa.
Acabar a luz na cidade grande é um evento - um grande evento, com vários momentos: primeiro, há o espanto, uns gritos pra cá e pra lá, uns fanfarrões gritando os nomes de seus times. Depois, o silêncio. Eu já havia me esquecido como era ouvir o silêncio no Rio, e meus ouvidos se surpreenderam com a falta (ou total?) percepção que lhes invadiu como uma onda. Olhei pela janela, para os muitos prédios à minha frente, grandes sombras, um ou outro retângulo aceso (nota mental: perguntar nos prédios sobre luzes de emergência domiciliares), uma vidraça trepidando tal qual meu retângulo deve estar agora. De repente, uma janela se abriu, e uma sombra masculina surgiu. Fiquei olhando com medo de olhar, não sabia se minha vela deixava meu rosto à mostra ou se eu era apenas mais uma sombra. Por alguns momentos, senti ser olhada de volta. Er...ok, saí da janela.
Sem o final do capítulo de "Viver a Vida", vovó ligou o modo pane: medo que mamãe não enxergasse as escadas, que estivesse presa no elevador ou sendo engolida pelas ruas escuras. Uma vez que mamãe chegou em casa trazendo notícias da rua e meu irmão, com seu MPnãoseionº me informando sobre o apagão (nacional, como fui descobrir) enquanto o jogo do Vasco não era transmitido, a calma voltou à casa - e, ao que parece, não só à minha. Lá fora, os carros passam pelas ruas pós-chuva, restaurantes funcionam com luzes de emergência, pessoas conversam (sim, alto) nos apartamentos vizinhos. E eu fico aqui, na minha talvez romântica e ingênua idéia de que o mundo esteje tão ofuscado, tão iluminado, tão cego pela claridade a ponto de não perceber que, na verdade, pouco precise - ou importe - as (muitas) luzes da cidade.
sábado, 17 de outubro de 2009
Gone with the wind
Eu queria mesmo era seguir o vento. Assim, como quem não tem nada a perder, não tem segredos a esconder nem tempo pra desperdiçar. Queria sentir a vida assim, bebendo-a como se fosse picolé num desses verões cariocas, dormindo como se não dormisse há dias, ansiá-la como se estivesse na rodoviária esperando por alguém amado. Queria abraçá-la assim, como se fosse um filho voltando da guerra, ou um marido que me traz um presente tão lindo - presente tão lindo esse, a própria vida.Eu queria era boiar no mar e deixar a maré me conduzir praonde ela bem entendesse. Queria ouvir apenas os sons do movimento sob a água, e os movimentos dentro de mim.Eu queria pular de cabeça nessa vida como quem salta de uma cachoeira sem saber a sua profundidade. Queria sentir a sensação única de voar, de não ter controle do próprio destino e, ao mesmo tempo, ser abolutamente senhor de si. Queria deixar o impacto da vida me dominar, me fazer perder os sentidos para depois me achar, voltar à superfícia com a sensação única de ter sido tão livre quanto os que não têm responsabilidades, metas a serem cumpridas ou deveres a serem feitos.Eu queria seguir uma bússola quebrada, ou os passos do curupira, ou a imaginação de uma criança. Queria entrar numa floresta e não ouvir nada além dos meus pés quebrando galhos, o cochicho das árvores, os pequenos, grandes e pequenos grandes animais ao meu redor. Queria subir numa árvore bem alta, e me deixar enlaçar pela sua beleza e magnetude.Eu queria era botar o pé na estrada, pegar carona com pessoas de boa índole e só depois perguntar praonde estaríamos indo. E eu queria que essas pessoas sorrissem e me dissessem: "Não sei, estou indo com o vento".
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